London Pride ²

Ano passado eu perdi a parada gay de Londres. Esse ano eu anotei a data e fiz questão de me organizar para ir.  Dia 8 de julho: Pride in London. Tema: Love happens here (o amor acontece aqui). A cidade estava toda colorida e bandeiras do arco-íris flamejavam por todos os lados.

Apesar de eu achar que não tenho mais idade (leia-se disposição) para eventos na rua com muita gente. Eu estava disposta a encarar a multidão pela causa.

Como diria Lulu Santos: “Consideramos justa toda forma de amor”. Igualdade, respeito e amor. Tudo isso em uma grande celebração em Londres: a cidade mais aberta às diferenças que eu já conheci. Apesar do tradicionalismo dos ingleses, aqui em Londres todo mundo é como quer ser. Como deveria ser em todo lugar.

Existe sim preconceitos, mas eles são menos visíveis. Mas as culturas se misturam e cada um pode ter a identidade que quiser ter. Isso me encanta. E eu também queria levantar essa bandeira!

Meu receio era o de todo carioca: evento público na rua tem tudo pra dar errado. Multidão, transportes lotados, fome, sede, como voltar pra casa. Erro meu.

Peguei o metrô e cruzei a cidade bem no horário marcado para o início da Parada. Meu espanto: estava menos cheio que em outros fins de semana. Andei tranquilamente sem ser julgada pelos meus cílios postiços, cabelo duro pela tentativa de pintar de rosa e glitter, muito glitter. E sem nenhum empurra-empurra ou sufoco.

Encontrei minha galera e fomos andando: a ideia era sair cedo de casa e ir para o começo da Parada ver eles sairem com mais tranquilidade. A realidade foi que saímos tarde e resolvemos atravessar a cidade até a Trafagal Square. Lá era o ponto final da parada e onde estava montado um palco com diversas atrações. Na minha cabeça aquilo era uma loucura, mas eu já estava completamente jogada nela.

Lá fomos nós, atravessando a cidade por ruas paralelas até chegarmos no Soho. Ali tivemos vontade de ficar – pra sempre. Parecia um carnaval carioca organizado, só que ao invés de marchinhas tocava Britney. A animação tomou conta mas ainda queríamos ir até a Trafagal, eu queria muito ver a parada em si.

Seguimos caminhando sem nenhum perrengue, nenhum sufoco. Chegamos ao nosso destino, abrimos nossas cadeiras e vibramos a cada grupo que passava.

Eu acho que faltou um pouco de animação ao povo que tava no desfile. Mas talvez eu esteja exigindo muito dos londrinos (e comparando com a animação do carnaval – afinal é minha referência natural de desfile).

 

Mas o fato é que eu parecia um pinto no lixo.

Aliás, falando em lixo. Assim que acabou o desfile todo mundo se dispersou e em menos de 10 minutos não restava mais quase nada além do lixo no chão. Vi uma garrafa quebrada no chão e corri para recolher os cacos. Não gosto da ideia de ser co-responsável por alguém se machucar. Muitos me olhavam sem entender o que eu estava fazendo. Passaram-se 5 minutos e o pessoal da limpeza urbana chegou. Em menos de 20 minutos do fim daquela festa as ruas estavam limpas. Sim, isso mesmo.

Resolvi ir embora e dali eu me despedi da minha galera. Andei sozinha e peguei um ônibus a poucos metros de onde terminava a parada. O pessoal já estava desmontando as grades, o lixo já estava sendo recolhido e eu não tive que esperar muito pelo meu ônibus. Ele veio vazio e não peguei nenhum trânsito até chegar em casa.

Vale também dizer que além da Parada Gay estavam acontecendo pelo menos outros dois eventos de grande porte na cidade: Wimbledon e British Summer Time no Hyde Park. O mais antigo e prestigiado torneio de tênis do mundo e um festival no parque mais famoso de Londres com show esgotado de The Killers. E eu não passei perrengue e fui para casa de ônibus, vazio, sem trânsito.

 

Parece conto de fadas, né? Mas não é. Eu ainda fico impressionada de lembrar como tudo funcionou perfeitamente normal naquele dia. Eventos enormes pela cidade, multidões nas ruas e a cidade continuou funcionando. E funcionando com louvor.

Naquele dia eu saí de casa para levantar a bandeira LGBT+ e voltei também orgulhosa da cidade em que eu moro. London Pride².

Beijos,
Ju

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